domingo, 18 de dezembro de 2011

À espera


E ali parado no portão aberto que dividia a calçada e a área da casa dela, ele disse que voltaria só no dia seguinte e acrescentou que agora iria se arrumar para sair. Então ela encarou-o com mais intensidade que de costume e lhe pediu que viesse despedir-se dela. – Isso porque teve medo de sentir saudade depois. E isso a preocupava, pois sabia que sentiria.
Ele respondeu prontamente que viria despedir-se sim quando estivesse indo. E aí enquanto ele se virava para tomar o caminho da rua, ela fechou o portão e com a testa e as mãos grudadas na grade, a imagem dele caminhando foi se refletindo em seus olhos amuados.
Quando ela viu que ele entrou na casa dele, sentou-se no chão, afundando os cotovelos nos joelhos e apoiando o queixo nos punhos cerrados. Não tirava os olhos daquela casa para não perder a hora que ele passasse pelo portão. Ficaria quase um dia sem vê-lo e doía-lhe ter que se despedir por uma noite. Mas, ela ansiava por esse momento porque se derreteria no último abraço dele do dia e teria em que pensar a noite toda e sorriria ao se lembrar do deleite só existente por causa daquele abraço. Seria assim até que pegasse no sono. Então agora lhe vinha um desespero: Não sabia se sua luta era contra a ansiedade de abraçá-lo logo ou se era contra a tristeza angustiosa de ter que se despedir dele. Talvez fosse com ambas.
Nisso, eis que ele aparece, abrindo, saindo e fechando o portão. No mesmo momento, num átimo ela sentiu seu coração apertar. Era a saudade já dando início ao seu massacre, como ela sabia que aconteceria. Mas seus olhos se arregalaram à medida que o aperto ficou maior ainda quando ela viu que ele dobrou a esquina. Começou a se sentir frágil e as lágrimas fizeram rapidinho o serviço de inundar seus olhos com aquela angústia que lhe escapulia do peito. Chorou com vontade. Um choro inocente, sentido. Ele se esquecera de vim se despedir dela, e a dor de ter visto a prova disso a amarrotava por dentro, colocando-a numa guerra contra si mesma. Ele disse que viria e ela se perguntava por que ele fizera o contrário. Não sabia a resposta. O fato é que fora esquecida. Não sentia fúria por isso... Mas sentia-se uma garota de amor recíproco solitário.
Não se sabe como ela conseguiu levantar-se e se equilibrar sobre as pernas sem forças. Mas ela se levantou e foi deitar-se em sua cama, dentro de casa. E de repente, surgiu aquela vontade de se aquietar. De pôr-se num colo que ninguém dava, a não ser o seu silêncio consigo mesma, que a acalmava aos poucos.
Adormeceu em poucos minutos. Preferia dormir com a sensação de deleite do abraço que não recebera. Mas para ela, ter um bom sono também era questão de tolerância. E ela tolerava tudo, enquanto se aquietava. Que bom que dormira. O amanhã chegaria junto com seu despertar. Então ele já teria chegado, daria sua desculpa da vez ou não, e tudo ficaria bem, de qualquer forma. Sua presença era agradável demais e ela o amava muito para não desculpá-lo. E também, amanhã ela ainda não teria desistido do abraço – que seria ainda melhor, por ser de chegada e não de despedida.
E quem sabe ele não se despedira de propósito, só para que a volta fosse mais desejada e feliz.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A motivação

Saiu ao vento vendo que nada mais daria certo. E quis morrer. Viveria motivada pelo quê..., se já perdera as esperanças?.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Thalita

Tudo parecia denso. Até mesmo o ar que entrava pelas minhas narinas parecia sentir medo, pena, ou sei lá o que de algo. As folhagens das árvores que nos rodeavam farfalhavam ao sopro do vento fúnebre que preenchia o dia cinzento.
Devíamos estar em algum lugar alto. Porque logo atrás de Thalita, o solo em que pisávamos findava. E a vista daquele lugar parecia mesmo um tanto panorâmica.
- Eu te amo tanto!
- Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. – Pediu ela, com aqueles negros olhos rasos que conseguiam ser profundos ao se direcionarem aos meus. Então sorri e tomei-a em meus braços.
- Já estamos distantes de tudo. – Falei enquanto a abraçava, confortando-a.
Depois de uns instantes, num repente ela se livrou delicadamente dos meus braços que a prendiam num abraço. Deu um passo para trás e não tinha nada ali para que ela tropeçasse, mas ela caiu. Foi então que percebi que estava em um penhasco. Lembro-me veemente do desespero que senti quando olhei para baixo e avistei o corpo dela indo de encontro ao rio enorme que lá havia. Eu não cheguei a pensar em algo. Quando dei por mim, era meu corpo que havia caído ruidosamente na mesma água que a engoliu. Caí de olhos abertos e, devido a minha forte queda, pude enxergar a água incolor fazer bolhas ao meu redor e tornar-se branca. O rio era escuro e parecia ser de uma profundidade sem fim. – Assim como eram os olhos de Thalita.
Mergulhei fundo, olhando para todos os lados à procura dela. Mas não a via. Tampouco conseguia ver lados ali de baixo. Estava tudo escuro e eu só sabia que estava na água, porque não conseguia respirar. Mantinha meus olhos abertos, mas era como se eles estivessem fechados. Eu não via absolutamente nada a não ser um único e puro breu.
Não tardou a bater em mim uma imensa necessidade de voltar à superfície para buscar ar para meus pulmões. Todavia, algo não me deixava ceder a outra necessidade que não fosse encontrar Thalita naquele rio abismático. E eu nadava, nadava, numa procura sem êxito. Até que meus pulmões não puderam suportar mais. Nisso, nem se eu quisesse conseguiria chegar à superfície. Era tarde para isso. E no desespero do meu afogamento, acordei.
Meu corpo parecia ter chorado por horas enquanto dormi. Eu estava transpirando demais. Sentei-me assustado na cama, respirando fundo, enxugando o suor da testa enquanto tentava acalmar meu âmago, dizendo a mim mesmo que aquilo havia sido um pesadelo. Mas eu não sabia o que era pior: Ter despertado daquele sono opressivo sem entender o sentido dele, ou ter morrido nele sem ao menos encontrar Thalita, o meu amor. – A menina da minha vida, que a propósito, já havia falecido há um mês.
Do que estaríamos distantes? Seria da tortura da saudade e até mesmo distantes da própria distância? Será que tudo era um indício de que ela também sentia minha falta de onde quer que estivesse?
Era bom tê-la comigo em meu subconsciente. Ainda que por vezes fossem pesadelos nos quais ela sumia sem que eu conseguisse encontrá-la, eu podia sentir o calor do corpo dela quando a abraçava. Podia sentir normalmente todas as emoções que o olhar dela transmitia. Tudo exatamente como eu sentia em vida, quando ela respirava.
A saudade que eu tinha dela pisava em meu peito com salto agulha. Incomodava-me não entender aqueles pesadelos. Mas quando eram sonhos, ah... Por Deus, como eu odiava acordar.

#Pauta para 83ª edição musical e 84ª edição visual do Bloínquês